Conto de uma (quase) Julieta.
Aquela garota era bonita; e tinha belos cabelos cacheados caindo sobre seu belo rosto. Ouvia Caetano antes de dormir, tocava violão e escrevia poemas. Como um garoto qualquer teria se atrevido á partir seu coração daquela maneira?
Ela tinha os lábios mais rosados do que Julieta, e seus olhos se espremiam ao sorrir. Meu Deus, que garoto tinha coragem de faze-la chorar tanto?
Ela adorava cachorros e sorvete de pistache. Ela tinha a letra de "Here comes the sun" na ponta da língua. E, com tantas qualidades, ele ainda conseguiu deixa-la chorando.
Os pés, descalços, gelados, curvados, enquanto ela estava sentada no chão frio. O moletom cinza escuro e os cabelos num coque alto. Assim, ela foi encontrada quando ele a deixou, era o que diziam.
Ela tinha os lábios contraídos e de seus olhos saíam lágrimas sem cessar. Em seu rádio, baixinho, ouvia-se a voz de Djavan, cantando: "E o coração de quem ama, fica faltando um pedaço, que nem a lua minguando, que nem o meu nos seus braços."
Seus soluços vinham carregados de dor. Onde estaria aquela menina que um dia conheci? Estaria escondida por trás daquele véu de melancolia?
"Ela se perdeu quando ele a deixou", dizia um. "Ela só precisa de atenção", dizia outro. "Ah, é só um amor que foi embora. Logo ela encontra outro e esquecerá desse." dizia vários.
Ela tinha aprendido a tomar café regularmente. Aprendeu a ter olheiras, voz cansada e meio sorriso.
Meio sorriso, este, que nunca espremiam seus olhos.
Ela se esqueceu de ser quem ela sempre foi.
E, com isso, ela esqueceu de olhar para sí, assim como eu, sempre a olhei.
Ela esqueceu de quanto seus cachos balançavam num simples sussurro do vento. Esqueceu da voz de Caetano cantarolando "Oração ao tempo" toda noite, pouco antes de adormecer.
Seus lábios frios, falavam palavras rudes. Ela esqueceu dos poemas doces que escreverá um dia.
Não tomava mais sorvete, tampouco passeava com seus cachorros. Isolada que estava, esqueceu-se do mundo por dizer que o mundo havia a esquecido.
Ela só não esqueceu do garoto que a deixou assim. De olhar para ele como o que ele sempre foi. Ele não era seu Romeu.
E, daqui, eu observo, a minha Julieta tomar sozinha seu ponche de veneno mortal. No rádio, toca "Help", dos Beatles.
"But now these days are gone, I'm not so self-assured.
Now, I find, I've changed my mind and opened up the doors."
Eu vejo seus olhos se comprimindo pela última vez
Eu vejo o vento balançado seus cachos pela última vez.
Oh, droga. Eu vejo seu pequeno corpo a cair no chão frio.
Seus lábios arroxeados parecem se despedir.
"(...) Help me, get my feet back on the ground..."
E, então, ela adormece em um sonho.
Sonho de Julieta que queria esquecer seu Romeu.
Eu a observo mais uma vez.
A coloco nos braços e canto, por fim:
"Here comes the sun, and I say: It's all right."

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''Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.'' :)